segunda-feira, 12 de março de 2018

Memórias do que já esqueci



Passamos grande parte do nosso tempo a evocar informações e vivências que fomos armazenando na nossa memória. A memória, sistema ativo que recebe, armazena, organiza, modifica e recupera a informação no ser humano está intimamente relacionada com o processo de aprendizagem, estabelecendo com o mesmo uma relação de complementaridade. Não há aprendizagem sem memória.

É igualmente comum associar no mesmo raciocínio dimensões tão distintas como o passado, o presente e o futuro. É quase unânime que de pouco vale falar de futuro, se não existir consciência do passado. De pouco adianta olhar em frente se não existir referência do que ficou para trás. Ter consciência do caminho feito é, por isso mesmo, fundamental para perceber por onde se quer caminhar.

As memórias que melhor preservo e que muito contribuem para o que sou, levam-me a Ponte de Lima…às férias de Verão que tardavam a chegar e se consumiam num ápice, às Feiras Novas do meu encanto, à alegria que era reencontrar os “meus” e à emoção que era deixá-los. Lembro-me com uma nitidez incomum das lágrimas que caiam pela face da minha avó Dolores em cada despedida. Lembro-me… Mas…e quando o passado nos escapa entre os dedos?...e quando deixamos de controlar os “ontens” e os “amanhãs” são pautados pela incerteza? Responder assertivamente a estas perguntas é, talvez, um dos maiores desafios que nos podem colocar e as respostas que eventualmente consigamos proferir deitam por terra todo e qualquer dogma preconcebido. O que aparentemente nos foi apresentado como inabalável, perde segurança…e também perde segurança o “amanhã”, dado que o “ontem” deixou de o alicerçar.

Lembro-me…a memória raramente me atraiçoa. Mas a minha avó Dolores já não se lembra. Já não se lembra do quão comoventes eram as nossas despedidas, de me ensinar a dançar a Rosinha e de como foi determinante para mim. Já não se lembra. Os seus “ontens” são inexistentes. Perante a suposta imprescindibilidade de precisarmos de “ontens” para alavancarmos “amanhãs” questionarão: Então, para que vive? Vive para cada dia. Vive o presente. E o facto de ter esquecido o que viveu não retira qualquer importância ao caminho trilhado…porque o seu passado continuará a ser evocado por todos aqueles que, em algum momento, fizeram parte dele.





(Em memória da minha avó Dolores que nos deixou em Novembro de 2016)

Sem comentários:

Enviar um comentário