segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

(Des) Igualdades no Feminino






Existem temas intemporais… temas que têm sempre tema. Pelos melhores e pelos piores motivos. Existem causas que a mim se colam como se de uma segunda pele se tratasse e não desgrudam… teimam em não desgrudar. Pelos melhores e pelos piores motivos. Existem vidas que me inspiram, me cativam, me emocionam, me revolucionam. Pelos melhores e pelos piores motivos.

Pelos melhores e pelos piores motivos a Mulher tem sido notícia.  Porque luta, porque conquista, porque é multifacetada, porque é emancipada…porque é violentada física e psicologicamente, porque trabalha mais e ganha menos, porque é o elo mais fraco quando se fala de violação dos direitos humanos. Tristes aqueles que acham que a igualdade de géneros é uma realidade. Não é! Nem neste nosso portugalzinho, nem no restante mundo. Mas no que ao nosso país diz respeito a desigualdade ganha proporções dignas de constarem no Relatório da Amnistia Internacional.

“ De acordo com dados disponibilizados pela ONG UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), até 30 de novembro, 40 mulheres tinham sido mortas pelos seus parceiros, ex-parceiros ou familiares chegados; verificaram-se também 46 tentativas de homicídios. O número aumentou face a 2013, ano em que se registaram 37 homicídios.”

Esta é uma realidade que indigna, dói e revolta. É neste portugalzinho que queremos viver? É neste país à beira mar plantado que queremos educar os nossos filhos? Que exemplo queremos ser para eles? Que legado lhes queremos deixar?
Os dados são o que são e pecam, necessariamente, por defeito e por serem a ponta de um véu que esconde outros casos de violência doméstica.

É também nos dados apresentados pelo EUROSTAT que se percebe que o fosso entre homens e mulheres, no que ao salário diz respeito, aumentou. Isto não só é preocupante como escandaloso e tanto me envergonha como me agiganta. Que país é este que remunera em função do género? Que país é este que premeia, nomeia e elege maioritariamente em masculino? Este é o meu país…um país que, aparentemente, não é para mulheres. E só o é aparentemente, porque neste país existem mulheres de garra, de fibra e que fazem desacreditar todo um status quo que nos querem impor e no qual nos querem fazer acreditar. Desenganem-se! E se não perceberam bem, volto a repetir: Desenganem-se!... Chega!...

A desigualdade entre género continuará a fazer jorrar muita tinta…até agora tem-no feito pelos piores motivos. No entanto estou certa que se avizinham conquistas importantes.


Tenho perfeita consciência de como esta discussão perde fulgor quando olhamos para a condição feminina e para a desigualdade entre géneros no Sul da Ásia, na África Subsaariana ou Médio Oriente onde este tipo de assimetrias são incomparavelmente mais profundas….onde a  nenhuma mulher seria permitido escrever este texto. Mas também sei que isso em nada pode impactar com a legitimidade e até obrigação, que todos temos de fazer do mundo que nos rodeia um local mais justo e no qual a diferença entre mulheres e homens deverá ser apenas cromossomática e não de direitos.

After a While...


sábado, 13 de fevereiro de 2016

O teu riso

O teu riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda